Visão Sistêmica—O que está faltando para acontecer?

“Isto é um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar”. (Nietzsche)

Hoje encerramos nossa série de três posts sobre Visão Sistêmica. Para situar melhor você que talvez esteja chegando agora, no 1º post iniciamos nossa descrição de cinco paradigmas que devem ser quebrados antes da criação de um ambiente que propicie o desenvolvimento de uma visão sistêmica. Dessa forma, falamos sobre dois paradigmas:

1 – A prática leva à perfeição—Será?

2 – Senso de Urgência—Vamos resolver isso agora; depois a gente pensa no “resto”!

No 2º post; portanto, anterior a este, demos continuidade à descrição dos cinco paradigmas discorrendo sobre os três restantes:

3 – Poupar Esforços

4 – O perigo da obviedade—O óbvio não é tão óbvio!

5 – O outro lado da Moeda—Ás vezes, o óbvio é o óbvio mesmo!

Neste último post da série, abordaremos as condições adequadas para que um ambiente propiciador do desenvolvimento de uma visão sistêmica seja criado. Lembrando o que foi dito no post anterior:

“não é uma “receitinha” de passos pré-determinados para o desenvolvimento da habilidade de lidar com problemas sistemicamente. Simplesmente não é possível essa prática cartesiana quando o assunto é Visão Sistêmica.”

Mas afinal, o que falta para a coisa acontecer?

“Dividir um elefante ao meio não produz dois pequenos elefantes” (Peter Senge)

A forma compartimentalizada de lidar com os problemas dos tempos modernos produz soluções aos pedaços; ou seja, paliativas. Essa prática nos rouba a possibilidade de análise dos problemas considerando suas causas óbvias, e também as subjacentes; e os efeitos óbvios, e também os subjacentes. Resumidamente falando, quando analisamos os problemas aos pedaços só temos uma perspectiva de visão—a visão do pedaço. Consequentemente, as soluções servem para os pedaços. O problema é resolvido em parte ou paliativamente e não absolutamente.

As organizações, apesar dos diversos departamentos que as compõem, não devem ser vistas como a soma de diversos pedaços.  As organizações devem ser analisadas como Um Todo. O corpo humano funciona da mesma forma—vários sistemas que formam Um Todo; o corpo humano. Todos os organismos vivos e o universo funcionam dessa forma. São unidades, não a soma de pedaços. Existe uma relação intrínseca de interdependência entre as partes que as torna impossível de serem analisadas isoladamente. Quando o fazemos; isto é, na maioria das vezes, não produzimos soluções consistentes de longo prazo. Produzimos soluções paliativas e o retrabalho é a consequência.

Infelizmente, decidimos quebrar as unidades em pedaços na ilusão de que seria mais fácil entendê-las. Mas ao contrário, reduzimos nossa capacidade de compreensão do todo e passamos a produzir soluções aos pedaços; portanto, completamente inconsistentes. Por que temos que matar um leão por dia e assumirmos a condição de eternos bombeiros? Definitivamente, e infelizmente, não há outra escolha enquanto nossa visão for compartimentalizada.

Dessa forma, uma condição, sem a qual não é possível o estabelecimento de um ambiente que propicie o desenvolvimento de uma visão sistêmica; é a compreensão clara do todo organizacional. Não é possível produzir soluções produtoras de vantagens competitivas duradouras olhando para a organização aos pedaços.

Para que essa compreensão clara do todo se estabeleça, dois pré-requisitos, no meu entender, são fundamentais:

  1. Relacionamento de longo prazo: Alto “turnover” impede a construção da compressão do todo organizacional. É preciso tempo para que os laços relacionais se estreitem dentro das organizações, sejam interpessoais ou com a própria organização. Não é possível a identificação com a organização sem a segurança de longo prazo. Não falo em estabilidade trabalhista, não mesmo, falo de retenção de talentos através de políticas de desenvolvimento profissional consistentes.
  2. Gestão participativa: Para que as pessoas tenham uma compreensão clara do todo organizacional elas têm que ter participação no processo decisório da organização. Elas têm que participar ativamente da construção do futuro da organização. Se eu não tenho o poder de decisão, nem tampouco sou requerido a participar da construção do futuro da organização; para que eu preciso compreender o que o todo significa? Nada disso me diz respeito!

Além dessa compreensão clara do todo organizacional, todas as pessoas dentro da organização precisam também participar da construção do todo. Envolvê-las no processo de construção estratégica de futuro da organização cria um senso de unidade tremendo! Quando as pessoas percebem sua importância neste processo o compromisso é uma consequência óbvia. A partir desse ponto, o senso de visão sistêmica começa a se aprimorar “naturalmente”.

Não é exagero concluir que se eu tenho a compreensão clara do todo organizacional e participo da construção do todo organizacional, a forma que eu lido com as demandas organizacionais, sejam elas soluções para resolução de problemas ou criação de novas estratégias de alavancagem; será sistêmica. Em outras palavras, quando eu lido com um pedaço da demanda, eu resolvo um pedaço da demanda; quando eu lido com a demanda inteira, eu analiso as causas óbvias e adjacentes criando soluções sistêmicas de longo prazo.

Quando compreendemos o todo organizacional e reconhecemos nossa participação na sua construção, um novo e decisivo elemento surge—A completa identificação com o todo organizacional. As pessoas se envolvem e se comprometem de tal maneira que passam a se sentir o próprio todo. Em resumo, as pessoas não se sentem mais partes ou pedaços, mas a “coisa” completa, íntegra. Relacionamentos de longos períodos funcionam assim. Os casais de longas datas “perdem” suas próprias identidades e passam a ser um só; uma unidade indivisível. Não é utopia, não! É um processo factível de gestão organizacional.

Quando esses três elementos—compreensão do todo, reconhecimento da importância na construção do todo e o sentimento de completa identificação com o todo conjuminam; o tão sonhado ambiente propiciador do desenvolvimento de visão sistêmica se estabelece. E as soluções e estratégias são elaboradas e implementadas sistemicamente produzindo vantagens competitivas duradouras e garantindo a longevidade bem sucedida da organização.

2019-04-04T07:20:47-03:00 9 de outubro, 2017|Educação Corporativa|0 Comentários

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