Negacionismo! Por que negamos o inegável?

Negacionismo! Por que negamos o inegável?

“Não quero saber quem sou, morro de medo. Nem quero saber pra onde vou, é muito cedo. Talvez se eu arrancasse de minha língua o sinal. Talvez se eu inventasse o juízo final”. (Fagner e Abel Silva)

Eu não acredito!

Quando a realidade é dura demais, como uma pandemia que impactou (está impactando) todos nós de forma significativa, nos refugiamos no “mundo seguro” da negação. Fazemos isso inconscientemente como uma estratégia de defesa para nos mantermos minimamente “saudáveis” mentalmente. Nosso cérebro tem a capacidade de acreditar em mentiras que ele mesmo conta! Por exemplo, quantas vezes você falou ou ouviu alguém falar frases como estas: “eu não quero acreditar nisso!”; “não acredito que você fez isso comigo!”; “não acredito no que estou vendo!” e tantas outras negações de situações que, conscientemente, sabemos que são inegáveis, mas inconscientemente…

Agimos dessa forma para nos abrigar em uma “verdade inventada” aconchegante que nos faz crer em “realidades” sem a menor sustentação científica, simplesmente porque é mais seguro, mas confortável. O momento pandêmico que vivemos exacerbou, por questões óbvias, a nossa tendência de negar o inegável. Mas afinal, por que agimos assim?

O negacionismo na psicanálise

É inegável (sem querer fazer nenhum trocadilho) que Freud explica tudo! A ideia de negação não ficaria de fora. Sendo assim, Freud postulou que a negação é um mecanismo de defesa de ego na tentativa de minimizar ou anular prejuízos emocionais gerados por situações inusitadas, imprevistas, incertas; nos mantendo minimamente saudáveis mentalmente. Essa manobra da nossa psique é inconsciente e, por esse motivo, indivíduos acometidos por esse mal, acreditam em realidades que criam para negar o inegável sem nenhuma fundamentação científica. Entretanto, apesar desse mecanismo de defesa de ego proporcionar um conforto momentâneo tipo: “o mundo está desabando, mas eu não acredito nisso”; indivíduos afetados por esse comportamento têm lampejos de consciência que os levam à profunda angústia, podendo culminar em estados depressivos que requerem tratamento, quando percebem que a situação é, de fato, real.

Tirando proveito do negacionismo!

Negar a realidade é um distúrbio emocional que assola um número considerável da humanidade; logo, pode ser objeto de manipulação pela indústria, pela política, pela religião, enfim; por instituições e pessoas que, por motivos escusos, se valham deste artifício. Considerando que os que negam a realidade precisam de suporte para reforçar suas falsas crenças, os manipuladores não precisam de muito trabalho para alcançar seus objetivos. Basta elaborar uma falsa conexão com os fatos reais criando um enredo distorcido, que não precisa ser muito elaborado, para se construir um “fato comprovado pela ciência” e voilà; nasce uma teoria conspiratória (Clique aqui para saber mais (recomento muito esse link)). Isso vem de longe! Há décadas que o negacionismo é usado para manipular a opinião pública. Por exemplo, você sabia que um dia fumar fez bem à saúde e que o aquecimento global era uma conversa fiada?

Fumar faz bem para os pulmões!

Foi nos anos de 1950 que a indústria tabagista decidiu construir uma falsa realidade quanto ao hábito de fumar. A pressão contra o tabagismo começava a tomar força nos Estados Unidos. Pesquisas mostravam evidências científicas que atribuíam alguns tipos de câncer ao hábito de fumar. Dessa forma, um comercial veiculado nas TVs americanas afirmava que fumar fazia bem para a garganta e os pulmões. O vídeo foi produzido em um consultório médico (clique aqui para saber mais). Claro que para alguns fumantes, encarar a realidade de que o cigarro pode causar inúmeras doenças; é assustador. Negar essa realidade é uma defesa de ego confortável. Quando essa negação é reforçada pela ciência…

O aquecimento global é conversa fiada!

Mesmo que teorias conspiratórias não possam ser comprovadas cientificamente, a elucidação da dúvida já é suficiente para reforçar o negacionismo. Foi dessa forma que a indústria petrolífera e de carvão mineral tentou minar de todas as formas as comprovações científicas quanto ao aquecimento global nas décadas de 1980 e 1990. Mil histórias distorcendo os fatos foram criadas para prorrogar a exploração de energia fóssil. Não faltou “argumentos”: É a temperatura que controla o CO2; registro de temperatura não é confiável; não existe consenso quanto ao tema; a segunda lei da termodinâmica contradiz a teoria do efeito estufa; o aquecimento parou em 1998 e está esfriando; o aquecimento global foi criado pelos países desenvolvidos para frear o desenvolvimento de países emergentes… tem mais uma porção! Mas vamos ficar só com essas (Clique aqui e aqui para saber mais). Conviver com a iminência do fim do mundo também não é nada acolhedor; logo, acreditar em teorias contrárias a isso, ou repousar sobre o benefício da dúvida; é mais confortável.

A fome com a vontade de comer!

Vivemos um momento inusitado, imprevisto, incerto. A pandemia nos confronta com a realidade da nossa finitude. Realidade nada confortável de se encarar para a grande maioria da humanidade. Dessa forma, o negacionismo ressurge com toda a força. Concomitante a isso, as crises geopolíticas também estão em alta. Em resumo, juntou a fome com a vontade de comer.

Todos nós sabemos (ninguém pode negar) que Estados Unidos e China vivem uma guerra comercial, não é de hoje, em torno da supremacia da 4ª Revolução Industrial (Clique aqui para saber mais). A China vem ganhando terreno nas últimas décadas em relação aos Estados Unidos no segmento tecnológico. Dessa forma, o governo Trump aproveitou a pandemia e o quanto isso desestabilizou a todos, para criar uma série de teorias que responsabilizavam a China pelo momento pandêmico.

Em consequência, as pessoas que têm dificuldades de aceitar duras realidades, negando-as inconscientemente, embarcaram nessa onda antichina promovida por Trump alimentando um ódio insano pela China e, pior, pelos chineses. Os negacionistas também adoram encontrar culpados que justifiquem sua desestabilização emocional; ou seja, o sofrimento tem origem em um culpado. Claro que isso não diminui a dor, mas acalenta o ego.  Além disso, as pessoas cuja estrutura emocional não é madura o suficiente para lidar com situações inesperadas e incertas que podem lhe causar danos negam não só a realidade dos fatos, mas também tudo que envolve os fatos. Sendo assim, foi dito que a tecnologia 5G dos chineses (a melhor do mercado) seria usada para espionagem (as gerações de 1G a 4G nunca foram usadas para isso!). O vírus foi fabricado, propositalmente, em laboratório, com o intuito de quebrar a economia mundial para que, a partir daí, a China comprasse todas as empresas de capital aberto e se tornasse a dona do mundo e por aí vai.

O negacionismo Tupiniquim

Nesta batida negacionista o nosso Brasil não poderia ficar de fora. O governo Bolsonaro se valeu da teoria do negacionismo para desviar a atenção de assuntos mais delicados que envolvem as acusações ao seu Clã de improbidade administrativa além da incompetência na gestão da pandemia. É inegável a forma ineficaz com que o Brasil lida com a situação. Exemplos não faltam: Pessoas morreram asfixiadas em Manaus por falta de cilindros de oxigênio. O mínimo que se espera, para o combate de uma doença respiratória grave é um estoque de oxigênio eficiente. Não aconteceu. A recusa de estratégias de isolamento por parte do governo federal (lockdown; nem pensar!), as quais, comprovadamente, surtem efeito (clique aqui (recomendo muito este link), aqui, aqui e aqui para saber mais); é um outro exemplo da manobra negacionista do governo. O pretexto de preservar o estado democrático de direito é o mais insólito e estúpido possível. O isolamento em um momento pandêmico é uma medida prescrita pelos órgãos de saúde competentes para salvaguardar vidas o que, diga-se de passagem, é constitucional e, portanto, tão democrático quanto o direito de ir e vir (clique aqui para saber mais).

Nada é tão ruim que não possa ser piorado!

Somos surpreendidos a cada momento com mais e mais negações: Máscaras cirúrgicas não são eficazes na prevenção do contágio; muito pelo contrário, fazem mal à saúde causando asfixia. O interessante é que não existe nenhum caso registrado de pessoas que morreram ou, ao menos, desmaiaram pelo uso prolongado da máscara de proteção. Fico imaginando os grafiteiros que ficam horas usando máscaras, assim como os shapers (clique aqui para saber mais), os neurocirurgiões e toda a população que, voluntária ou obrigatoriamente, tiveram e têm que usar a máscara. Você conhece algum caso que tenha registro na literatura científica de problemas causados pelo uso de máscara cirúrgicas? Eu não conheço. O cúmulo do absurdo foi apelidar a máscara de “mordaça ideológica!” Já tentei de todas as formas entender o sentindo dessa alcunha, mas não alcancei o mérito do significado.

Como se não bastasse tanta insanidade, o presidente faz questão de mostrar o seu lado tosco de ser quando desrespeita vidas ceifadas e famílias enlutadas, muitas vezes com frases sarcásticas, escarnicas e desproporcionais recheadas de palavras de baixo calão (especialidade da casa). O resultado desta maluquice não poderia ser outro: mais de quatro mil mortes diárias, quase 350 mil mortes registradas e 13,3 milhões de casos, até aqui, aproximadamente. Para a nossa tristeza, as previsões não são nada alvissareiras. Tudo indica que o pior ainda está por vir (Clique aqui e aqui para saber mais). 

Somos bombardeados diariamente com bobagens infundadas que desafiam nossa capacidade cognitiva de entender o simples. Nosso país atravessa um momento de trevas! Torço para que tudo isso passe logo e retomemos a sobriedade mínima na condução de nossas vidas. Enquanto esse momento não chega, armemo-nos de paciência para suportar aqueles que negam o inegável.

Até breve!

2021-04-12T06:59:21-03:00 12 de abril, 2021|Atualidade|0 Comentários

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