Legado Organizacional – As Pedras do Japão!

Legado Organizacional – As Pedras do Japão!

“A melhor forma de viver a vida é investir em algo que ultrapasse a sua própria duração.” (James, W.)

O que você tem feito em sua vida que ultrapassará a sua própria existência? O que você vai deixar para quem vem depois de você? Você está disposto a fazer algo cujo resultado você não testemunhará e os frutos você não colherá? O Japão nos dá uma lição importante sobre esse tema – Legado!

No dia 11 de março de 2011 a mídia do mundo inteiro noticiava uma das maiores tragédias da história do Japão. Um terremoto de magnitude de 9.0 graus na escala Richter sacudiu a região nordeste do país matando dezenas de pessoas e provocando uma onda gigante que fez com que mais 19 países do pacífico entrassem em alerta de tsunami. Os números da tragédia são impressionantes – mais de 11 mil mortos; 17 mil desaparecidos; 18 mil casas destruídas; 130 mil edifícios danificados e aproximadamente 250 mil pessoas tiveram que deixar suas casas para se abrigarem em 1.900 abrigos temporários.

Como se não bastasse, a usina nuclear de Fukushima, localizada na região do tremor, foi severamente danificada provocando vazamento radioativo que culminou com a remoção da população local em um raio de 20 km a seu redor. Segundo relato do governo japonês, a radiação na área alcançou oito vezes o limite de segurança.

Em meio ao caos generalizado o Japão (os japoneses), com toda a paciência, disciplina, e serenidade, traços peculiares da raça, começou a juntar os cacos do estrago. Afinal, grandes tragédias não é novidade para o Japão! Um país que já tremeu em diversas intensidades na escala Richter e que já levou na cabeça ondas que não deixaria nenhum “big rider” com inveja (sem contar com as bombas atômicas!); certamente, de novo, daria (está dando; passados seis anos), a volta por cima mais uma vez.

Obviamente a ajuda internacional foi determinante para auxiliar na árdua tarefa de começar de novo, mas o maior mérito da reconstrução é, indubitavelmente, do povo japonês. Mais uma vez os japoneses, com determinação implacável, mostram ao mundo que são diferentes. Só para se ter uma vaga ideia, a reconstrução de uma estrada que liga Tókio à Naka, uma província atingida pelo tsunami, levou apenas seis dias para ser reaberta! Seis meses foi o tempo necessário para que o aeroporto de Sendai, outra cidade severamente atingida, estar completamente restaurado e funcionando. Nesse momento você deve estar se perguntando – que país é esse!? É o Japão!

Mas não pense que o surrealismo para por aí; não, não no Japão! Dando um exemplo de planejamento e organização (outra marca registrada do país), o Japão criou uma agência especial para a reconstrução. Essa agência estimou um fundo de 235 bilhões de dólares, o qual seria administrado por ela, para a reconstrução das áreas afetadas. Após o recebimento do fundo através de ajudas internacionais, o Japão devolveu (isso mesmo, devolveu!) mais de 100 bilhões de dólares de doações feitas pela Cruz Vermelha simplesmente por que esse montante, somado as outras doações, ultrapassaria a verba estimada e necessária à reconstrução do país! A bem da verdade que, definitivamente, o Japão não é um país; o Japão é um planeta de uma galáxia longínqua que não há no mundo telescópio capaz de visualizar!

Somado a esse exemplo de honestidade e cuidado com o recurso alheio, o qual está sendo tomado emprestado por uma extrema necessidade, os japoneses também devolveram o equivalente a 125 milhões de reais, em dinheiro vivo, encontrado nas áreas atingidas pelo tsunami. Outros bens de valor, como barras de ouro e joias, entre outros, também foram encontrados e devidamente devolvidos. À medida que os trabalhos de reconstrução se desenvolvia, com a remoção dos destroços, o dinheiro e outros bens eram encontrados por dezenas de trabalhadores, contratados pelo governo e voluntários, e devidamente devolvidos às autoridades para que os donos fossem localizados para resgatar seus bens e pertences. Apesar da enorme dificuldade para localizar os verdadeiros donos, o governo japonês declara que 96% do dinheiro foi devolvido para os legítimos proprietários ou para suas famílias (deve ser verdade, considerando que foi uma declaração do governo japonês). Mesmo que nada chegasse, por alguma razão, aos legítimos donos, o ato continuaria sendo da mais alta nobreza! Quem achou e devolveu, agiu movido pelo sentimento de fazer o que é o certo a ser feito sem se importar com o desfecho final do ato. Coisa de japonês.

O enredo de toda essa história dolorosa provocado por uma das maiores tragédias naturais do Japão (foi o quinto maior terremoto da história do Japão) envolta em lições de honestidades; solidariedade; planejamento; organização; disciplina… mexe muito com a minha cabeça. Mas o que mais chama a minha atenção em relação às tsunamis japonesas são, sem dúvida nenhuma, as pedras do Japão!

As Pedras do Japão

Existem centenas de pedras ao longo de toda costa nordestina do Japão, região castigada por frequentes tsunamis, sinalizando limites de onde o mar pode chegar em caso de uma onda gigante. Algumas dessas pedras têm mais de 600 anos! Um lembrete generoso às futuras gerações do limite de segurança no caso de uma onda gigante.

As pessoas que no passado passaram pela dolorosa experiência de um desastre natural de proporções enormes tiveram, além da árdua tarefa de refazer suas próprias vidas e chorarem suas perdas, a preocupação com os que viriam depois delas; muito depois delas. Se esforçaram muito (as pedras não são pequenas nem leves) para talharem e fixarem as pedras nos pontos específicos de segurança com o intuito único e exclusivo de salvaguardar os que viriam depois. Uma dessas pedras salvou uma vila de 11 casas em Aneyoshi. Na pedra tinha os dizeres: “Não construam suas casas abaixo deste ponto!”. A onda chegou até ao ponto onde a pedra foi fincada há mais de cem anos atrás e como as casa foram construídas acima; todas se salvaram.

Você já parou para pensar no que você está construindo agora que ultrapassará a sua própria existência? O que você vai deixar para quem vem depois de você? Sem pensar em reconhecimento ou benefício próprio. Simplesmente pensando no benefício para as próximas gerações. Pessoas que você, provavelmente, nunca conhecerá. Não me refiro só à herança que você vai deixar quando partir dessa vida. Seus bens materiais e os conceitos formativos que seus filhos e pessoas do seu convívio poderão herdar de você. Obviamente quando morremos deixamos alguma coisa para alguém, mas nem sempre (quase nunca) construímos esse património pensando, única e exclusivamente, em alguém. Construímos, prioritariamente, pensando no nosso benefício e como não levamos nada na hora que partimos; tudo fica para alguém.

Os japoneses que deixaram as pedras sinalizadoras foram além desse conceito simplista de herança. Herança é uma palavra oriunda do latim, haerentia, que significa a transmissão de bens, direitos e obrigações às pessoas que, legalmente, têm esse direito. Ou seja, os sucessores do de cujus. O significado das pedras do Japão não é simplesmente uma herança, visto que os sucessores não precisam ser legitimados para usufruir do benefício do bem herdado. Na verdade, as pedras do Japão significam um legado do povo japonês passado de geração a geração de forma lindamente solidária, independentemente de laços familiares legais que conferem direitos jurídicos. É muito mais do que isso. É um legado!

Legado também é uma palavra latina, legatum, que significa algo deixado a gerações futuras. Algo que não tem que ter necessariamente valor monetário nem, tampouco, destinar-se a um grupo específico de pessoas (herdeiros). É para todos e para sempre. É uma ideia que se perpetua através dos séculos estabelecida altruisticamente. Solidariamente.

Temos muito que aprender com os japoneses em relação a isso: legado, solidariedade, altruísmo. Não digo que eles sejam o suprassumo da humanidade, nem um povo é. Mas essa capacidade de pensar e agir em prol dos que vêm depois é, sem dúvida, uma virtude. Um exemplo a ser seguido.

Fico me perguntando o quanto a vida seria mais fácil se tivéssemos essa cultura. Se vivêssemos e agíssemos pensando que o lugar que ocupamos hoje será ocupado por alguém amanhã. E que esse lugar que estou hoje foi deixado por alguém antes de mim. Se todos os recursos fossem utilizados sob essa premissa teríamos a certeza de estar recebendo o melhor e passando o melhor adiante. Se pensarmos o mundo corporativo, onde as pessoas transitam, dessa forma; sem dúvida estaríamos construindo ambientes de trabalho mais prazerosos de se trabalhar e consequentemente mais produtivos. Infelizmente, não tenho observado isso nas organizações nem na vida em geral, o que é muito mais importante do que ambientes corporativos. Mas se os japoneses podem, por que nós não podemos? Eles podem porque escolheram ser assim; nós, ainda não.

2017-06-26T13:02:38-03:00 12 de junho, 2017|Resiliência Organizacional|3 Comentários

3 Comentários

  1. Jane 12/06/2017 at 19:30 - Reply

    Conheço algumas cidades do Japão e realmente o respeito ao proximo faz parte do dia a dia deste povo que aprendeu humildade e altruísmo depois da derrota na 2a guerra mundial. São verdadeiros empreendedores. Parabéns .

  2. Joice 14/06/2017 at 10:03 - Reply

    OPA! Jane. Que privilégio conhecer aquele povo e aquele grandioso país, ainda que em um território tão pequeno. Um povo que deixa um legado não somente para os seus, mas para o mundo. Quem tem ouvidos ouça! Parabéns, Ary, por mais um artigo lindo.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: