Empreendedorismo—Gente que faz!

Empreendedorismo—Gente que faz!

“Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo”. (Henry Ford)

No post anterior falamos de empreendedorismo e das características fundamentais das pessoas que empreendem. Ressaltamos que ser empreendedor vai além da condição de simples empresário e que, quando o termo foi importado do dicionário estadunidense, alguns empresários passaram a se intitular empreendedores, com um certo orgulho, como que se o termo conferisse uma qualidade especial ao seu possuidor.

Pois bem, assumir o título de Empreendedor simplesmente por ser mais charmoso do que o de Empresário e não assumir uma postura empreendedora não resolve muita coisa, ou melhor, não resolve nada. Intitular-se Empreendedor e continuar agindo de forma reativa, burocrática, seguindo regras e padrões preestabelecidos, enfim; atolado na mesmice do dia-a-dia dentro da sua “caixinha”, significa dizer que você só está tocando o barco de acordo com a maré, ou melhor, a maré esta levando o seu barco para algum lugar o qual você não tem muita (se é que tem alguma) certeza de onde vai dar. Contudo, você se orgulha de ser Empreendedor! Lembre-se de que os resultados que você produz falam muito mais a seu respeito do que os títulos que você próprio assume ou os que instituições lhe conferem.

Existem características fundamentais e únicas que definem um Empreendedor, as quais o posicionam na vanguarda dos acontecimentos e, consequentemente, os diferencia das demais pessoas. Por outro lado, empresários comuns, reagem diante das circunstâncias, do mercado, das ações dos competidores enfim… seguem as regras do jogo em vez de criá-las. Não nego que seja possível crescer economicamente assumindo essa postura, porém tal crescimento não é sustentável.

Um Empreendedor tem a habilidade de proagir diante dos cenários de negócios. Em outras palavras, eles fazem com que os cenários de negócios aconteçam em vez de reagirem ou se adaptarem aos já existentes. São possuidores de uma capacidade inovadora tremenda, são determinados, quebradores de paradigmas, algumas vezes obstinados. Visam o aumento da produtividade, do lucro; não veem os problemas como importantes no processo de tomada de decisão mantendo o seu foco sempre e primordialmente nas oportunidades. Sua maior característica é, inegavelmente, sua enorme vontade de fazer as coisas acontecerem, não se importando muito a que preço, assumindo, às vezes, altos riscos para alcançar seus objetivos.

Histórias de Sucesso

A história está repleta de homens e mulheres que foram e são grandes empreendedores e empreendedoras. Henry Ford, dentre muitos, talvez seja o meu preferido. Ford, a seu tempo, foi ridicularizado ao afirmar que “venderia um de seus carros para cada americano”. Unanimemente, os empresários da época, de todos os segmentos da indústria, disseram que isso só seria possível se, e somente se, os carros fossem vendidos a um preço muito baixo e não era possível vender carros baratos naquela época. Ford não se limitou a reagir diante desse já existente cenário e surpreendeu o mundo, em pleno ano de 1925, criando um novo cenário onde seria possível fabricar carros baratos e consequentemente vendê-los mais baratos para cada cidadão estadunidense. E assim era criada a linha de montagem e a produção em escala industrial utilizada nos dias de hoje, guardada as devidas proporções. Tudo que Ford fez foi se perguntar a pergunta certa—“O quê que eu tenho que fazer para produzir carros baratos e, consequentemente, vendê-los mais baratos?” Todo o resto da indústria automobilística se perguntava—É possível vender carros baratos nas atuais circunstâncias? Resposta—NÃO!

Ford, que conseguiu criar uma linha de montagem na fábrica de Detroit nos Estados Unidos, em pleno ano de 1925, capaz de produzir um carro novo a cada 10 segundos (Taylor & Pincus 2001, pp.124, 440) e, consequentemente, a um custo de produção muito baixo e, obviamente, a um preço de venda muito baixo em relação ao mercado até então existente; viu algo que ninguém conseguia ver, mas que já existia de certa forma, e só estava esperando que uma visão estrategicamente empreendedora o vislumbrasse. Ford foi além porque não se limitou às circunstâncias e decidiu criar suas próprias regras, o que nos leva a concluir que um grande passo para nos tornarmos empreendedores (e é possível desenvolver essa habilidade, acredite) é nos perguntar a pergunta certa em vez de aceitarmos as circunstâncias como elas se apresentam.

Outra história que eu acho muito bacana de pessoas que empreenderam algo grande é a história da The Body Shop e de sua fundadora, Anita Roddick, uma brilhante mulher de negócios inglesa e ativista dos direitos humanos. Com muita determinação, do quase absolutamente nada, criou um império corporativo no segmento de cosmética natural inimaginável à época com mais de 3 mil pontos de vendas em 66 países empregando 22.000 pessoas.

“Dame Anita Lucia Roddick”, ou simplesmente Anita, como a própria preferia, foi considerada (e continua sendo), com toda justiça, uma das personalidades de negócios mais visíveis da Grã-Bretanha. Pioneira na “exploração” do mercado verde destacou-se não somente pelo crescimento impressionante de sua companhia, mas pela sua postura irrepreensível e pioneira frente às causas sociais. Sua empresa foi uma das primeiras a arvorarem os pendões de empresas socialmente responsáveis. Atuou, e ainda atua, em nome de inúmeras causas relacionadas ao meio ambiente e desigualdades sociais. Reivindica, por exemplo, políticas sérias em relação à preservação de florestas tropicais (a floresta Amazônica sempre esteve em sua pauta); o perdão de dívida para os países em desenvolvimento; assistência aos agricultores indígenas em nações empobrecidas; a proteção a animais em extinção, só para citar alguns. Anita acreditava que as empresas poderiam ser conduzidas eticamente sem comprometer o seu lucro, ao contrário, com reais possibilidades de aumentá-lo, postura essa que ela intitulou de “liderança moral”. Tony Juniper, diretor da “Friends of the Earth”, disse que “Anita fez muito mais do que gerir um negócio ético bem-sucedido: ela foi a pioneira em todo o conceito de consumismo ético e verde”.

Anita teve uma trajetória “curta” de vida. Morreu no ano de 2007, aos 64 anos, vítima de um AVC. ainda jovem! Sua contribuição para o segmento de empresas “verdes” e socialmente responsáveis é, inquestionavelmente, desproporcional ao seu tempo de atuação! Fez muito em muito pouco tempo. Coisa de gente valente. Além, é claro, de ter sido um exemplo de empreendedora de sucesso e mulher admirável pela valentia e determinação. Nota 10!

Ela, “teimosamente” (coisa de empreendedor) insistia em dizer que seus fundamentos não tinham bases teórico-cientificas. Espezinhava os acadêmicos quando dizia que “nunca contrataria ninguém vindo da The Harvard Business School” e atribuía seu sucesso ao fato de não ter aprendido a fazer negócios nas escolas de negócios. Era atrevida mesmo! E foi com esse atrevimento que no dia 26 de março de 1976 a empresa The Body Shop foi fundada com o propósito de vender cosméticos naturais.

Inicialmente, a empresa oferecia apenas cinco tamanhos diferentes de frascos para o consumidor, em virtude da precariedade de recursos inicial peculiar a todo novo pequeno negócio. Entretanto, Anita era inteligentemente flexível para permitir que seus clientes trouxessem seus próprios recipientes para serem preenchidos com os produtos de acordo com a necessidade individual de cada um. Naquele tempo, ou seja, mais de 40 anos atrás, Anita já conhecia a máxima do mundo dos negócios em relação a atender as necessidades e anseios dos clientes. Diga-se de passagem, máxima esta bastante difundida nas escolas de negócios que Anita tanto abominava. Inclusive, e obviamente, na The Harvard Business School.

Com sua visão empreendedora, Anita fez com que o pequeno negócio de investimento inicial de 4,000 pound, (uns 16 mil reais, aproximadamente), os quais foram levantados através de um empréstimo bancário, que tinha por missão a modesta pretensão inicial de prover necessidades pessoais, como a própria Anita afirmava—“para sobreviver e alimentar minhas crianças”; surpreendentemente transformou-se numa gigantesca empresa internacional capaz de alimentar as crianças dos Roddicks e, muito certamente, algumas futuras gerações.  Yeonmi Park, menina norte coreana refugiada, disse que “as mulheres são fracas, mas as mães são fortes”. Não concordo que as mulheres sejam fracas, mas que as mães são fortes; ah, disso eu não tenho a menor dúvida!

 O controverso e “unusual” jeito de Anita gerenciar seu negócio tem sido tema de fervorosas discussões no mundo acadêmico e corporativo. Num ponto todos concordam—sua refinada visão de futuro e sua habilidade de elucidar suas ideias e crenças; é incontestável. Por exemplo, ela foi suficientemente esperta (Empreendedora) para prever o enorme “mercado verde” que estava somente começando e ganhou, e tem mantido, importantes vantagens competitivas por seu pioneirismo. Para se ter uma ideia, o Greenpeace estava apenas começando a dar seus primeiros passos (a ideia surgiu em 1971); logo, Anita vislumbrou, acertadamente, que o futuro seria verde. Sendo assim, ela traçou sua estratégia—responsabilidade social e empresa ambientalista—muito à frente de seus concorrentes.

Sinceramente, se jogo de cintura no mundo corporativo tivesse nome e sobrenome; seria Anita Lucia Roddick! Quando Anita fundou sua empresa ela se deparou com um problema relacionado ao uso da marca The Body Shop. Isto porque uma empresa funerária já detinha este nome e, consequentemente, moveu uma ação judicial contra Anita. Criativamente, Anita contatou um jornal local e publicou sua triste história—jovem senhora, abandonada pelo marido (seu marido a deixara para fazer uma viagem pelo mundo! Pode um negócio desses!?), que acabara de abrir uma pequena empresa com um empréstimo bancário e que tinha por objetivo sobreviver e alimentar suas crianças—A história foi publicada e sensibilizou a comunidade com tamanha repercussão que os autores da ação decidiram revogar o processo judicial (na certa imaginavam que aquela “lojinha” de perfumes não ia dar em nada e não valeria à pena brigar com aquela “pobre senhora”. Ledo engano!). Além de conseguir livrar-se do processo judicial, Anita divulgou seu negócio tremendamente e, obviamente, as vendas aumentaram significativamente.

Baseado nesta bem sucedida investida, Anita desenvolveu uma política para sua empresa de nunca mais gastar um centavo em publicidade. Nos anos de1990, estimava-se, que a empresa recebia mais de 2.000.000,00 de pounds em publicidade grátis por ano baseado apenas na posição da empresa e de Anita em problemas sociais ao redor do mundo.

Hoje, apesar da ausência de Anita e da entrada da L’Oreal em 2007 (L’Oreal comprou a empresa por 938,8 milhões de euros), a empresa continua sendo promovida do mesmo modo; ou seja, pelas ações sociais e ambientalistas. Segundo Kate Levine, Diretora de Compromissos e Comunicações Corporativas, existe um plano ambicioso para solidificar de uma vez para sempre a empresa como “o negócio global mais ético e verdadeiramente sustentável do planeta”. Rebatendo as críticas de que a empresa perderia o rumo traçado pela sua fundadora após sua morte e que as suas características originais (empresa socialmente responsável e ambientalista) desapareceriam com o tempo; Levine afirma que as coisas continuam sendo feitas como antes; ela argumenta: “Tivemos uma campanha de “Stop Sex Trafficking” (pare como o tráfico sexual) que entregou sete milhões de assinaturas à ONU e mudou as leis em 20 países. E em 2013 fomos instrumentos na mudança das leis sobre testes com animais. Nós apenas não falamos sobre isso da maneira que falávamos no passado”.

Dona de frases de impacto como “Eu não contrato ninguém vindo da The Harvard Business School” e “Meu sucesso se deve ao fato de não ter aprendido a fazer negócios nas escolas de negócios”, dentre outras tantas; Anita foi amada por alguns e odiada por outros; mas indiscutivelmente respeitada por todos. Ela tinha o toque de Midas do empreendedor e a habilidade de dizer tudo que pensava em apenas uma frase. Seu potencial como comunicadora fala muito mais alto do que qualquer outra habilidade gerencial que ela possuía.

No ano de 1995, auditores externos foram contratados para avaliarem qual era a percepção dos colaboradores, franqueados, consumidores, fornecedores, acionista e comunidade em relação ao foco da empresa nos problemas sociais e preservação do meio ambiente. Os resultados dessa auditoria foram fantásticos. Por exemplo, em relação aos colaboradores, 93% veementemente concordam que a empresa toma posição efetiva em questões sociais e ambientais com destaque para as questões relacionadas a testes em animais. 94% dos franqueados do Reino Unido e 73% dos franqueados dos Estados Unidos concordam que a empresa faz campanhas efetivas em relação aos direitos humanos, proteção para o meio ambiente e testes em animais. Já os consumidores concordam que a empresa atinge 7,5 de cada 10 consumidor nas campanhas em prol dos direitos humanos, proteção do meio ambiente e contra testes em animais. Os fornecedores e acionistas concordam que a empresa toma efetivos passos para tornar suas ações direcionadas para questões sobre responsabilidade social e proteção do meio ambiente. Igualmente, a comunidade afirma que recebe fundos da empresa e concordam que a mesma toma efetivos passos na direção da responsabilidade social e da preservação do meio ambiente.

A bem sucedida história da The Body Shop, atesta que grandes empreendedores são atemporais. Seus feitos vão além de sua própria existência. Deixam sempre um legado e inspiram os que vêm depois a continuar a caminhada.  Dame Anita Lucia Roddick foi uma dessas pessoas comuns e especiais.

 

2018-06-25T17:38:31-03:00 5 de junho, 2017|Empreendedorismo|4 Comentários

4 Comentários

  1. Joice 08/06/2017 at 11:49 - Reply

    Esta história da vida empresarial de Anita Roddick é inspiradora. Parabéns!

  2. Jane 12/06/2017 at 16:25 - Reply

    Post muito bem escrito e interessante. A história de Anita realmente inspiradora.
    Parabéns, sucesso em seu projeto.

    • Ary Moreira 12/06/2017 at 16:34 - Reply

      OPA! Obrigado pelo comentário, Jane. Espero que você se divirta lendo os outros posts. Sucesso!

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