Obscurantismo—Quando a luz do conhecimento se apaga

Obscurantismo—Quando a luz do conhecimento se apaga

A corrente do anti-intelectualismo tem sido um fio constante na nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que democracia significa que “minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”. (A Cult of Ignorance, Isaac Asimov)

Uma das coisas que mais tem me cansado nos últimos tempos é tentar explicar para os extremistas de direita ou de esquerda que ser contra o governo Bolsonaro não implica necessariamente ser a favor da soltura e candidatura do Lula. A recíproca é inversamente proporcional. Não tem sido fácil explicar que existe vida inteligente além dos planetas, planos e rasos, tanto de um quanto de outro. Sinto minhas energias também completamente exauridas quando tento explicar que concordar com a saída dos Estados Unidos do Afeganistão não é a mesma coisa que concordar com o fundamentalismo islâmico do Talibã e toda tragédia humanitária que daí advém. Os extremos não permitem a análise crítica dos fatos. É tudo ou nada.

Neste post discorreremos sobre a nuvem escura que paira sobre o pensamento racional e científico dos tempos atuais. A propósito, você sabe o que é obscurantismo?

Obscurantismo—Por favor, acendam a luz!

Por definição, obscurantismo é o “estado de espírito refratário à razão e ao progresso. Doutrina daqueles que não desejam que a instrução penetre na massa do povo; doutrina contrária ao progresso intelectual e material. Estado completo de ignorância”. O obscurantismo teve seu apogeu na Europa, entre os séculos XVI até meados do século XIX, sustentando regimes absolutistas de governos por séculos. Analisando a definição, é coerente concluir que ninguém, em sã consciência, gostaria de viver na escuridão; então, por que o obscurantismo ressurge com toda força em pleno século XXI?

À noite, todos os gatos são pardos

O obscurantismo abre espaço à voz popular. Dessa forma, aqueles que se julgavam ignorantes, e agiam como tal; ou seja, não debatiam sobre temas que não alcançavam, “descobriram” que sua falta de conhecimento é tão relevante quanto o conhecimento dos que detêm o conhecimento na análise crítica dos fatos. Principalmente, o conhecimento acadêmico-científico. A ciência, e os fatos por ela comprovados, passam a ser relativos, uma questão de opinião. É comum ouvirmos obscurantistas apoiarem suas teses obscuras sob a frase: “as pessoas acreditam no que querem acreditar” justificando assim seu direito de opinar sobre qualquer tema com a mesma autoridade de quem realmente tem autoridade no assunto. Claro que isso não faz sentindo. Querer acreditar que a terra é plana não torna a terra plana. Então, por que as pessoas aderem tão facilmente a este estado de existência?

O poder das trevas!

Obviamente, esse estado obscuro de pensar empodera os que, até em tão, se recolhiam às suas insignificâncias intelectuais. Nada como se sentir partícipe dos processos político-culturais da sociedade que estamos inseridos sem precisar sentar o rabo em um banco de universidade por anos ou ler algumas linhas sobre as “enfadonhas” disciplinas Ciências Políticas; Sociologia; Filosofia, História entre alguns outros temas nada emocionantes. A autoestima se eleva e, claro, as pessoas querem manter esse estado de coisas para sempre. Logo, é um prato cheio para a manipulação de governos ávidos pela perpetuação do poder, como na antiga Europa, entende? E como acontece essa manipulação?

Faço da sua opinião a minha!

A primeira faceta, e talvez a mais sórdida, de líderes obscurantistas é criar a pseudo-imagem de igualdade. A intenção é construir nos seus apoiadores a sensação de identificação: “Ele é igualzinho a mim!”; logo, a minha opinião é a dele ou a dele é a minha ou vice-versa. Tudo muito bem estruturado na forma obscura de pensar! Claro que esta construção se dá subliminarmente, bem no escurinho mesmo, para que ninguém perceba. Sutilmente. Dessa forma, é comum líderes obscurantistas criarem cenários onde as atitudes; vocabulários; gostos; preferências; estilo de vida descrevem o estereótipo do cidadão comum. O resultado dessa manobra é a aceitação ampla, geral e irrestrita do pensamento do líder. Não há mais espaço para questionamentos. Se ele disse; é verdade. O que acontece, a partir daí?

O resultado da equação da escuridão!

Atrocidades são cometidas no estado da escuridão. São inúmeros os exemplos, desde os tempos da inquisição, passando pela tragédia de Ruanda, conhecida como genocídio tutsi, ignorado por nações como Bélgica, França, Estados Unidos, entre outras; até o, talvez mais emblemático dos tempos contemporâneos: O holocausto. O exemplo mais categórico das consequências do absolutismo obscurantista. Hitler convenceu os alemães que eles eram uma raça superior às demais e os judeus não eram gente; portanto, não deveriam ser tratados como tal. Uma tese sem a menor fundamentação científica, mas foi o líder que falou e se ele falou, certamente, ele está certo outra vez. A propósito, objetar a razão do pensamento acadêmico-científico é o prato mais cheio dos famigerados líderes obscurantistas! Mas por que isso?

A demolição do pensamento científico!

Destruindo o pensamento acadêmico-científico, o líder cria um cenário propício às suas manobras manipulativas na árdua tarefa de arregimentar seguidores. As contestações às ideias do líder são jogadas na lixeira da escuridão com a demolição do pensamento acadêmico-científico. A ciência se relativiza. O que é, de fato, pode não ser bem assim ou o que não é bem assim pode ser transformado no fato, de fato. Depende da conveniência. Daí notícias inventadas intencionalmente para manter o status quo do poder perdem a força da objeção do pensamento científico; afinal, a academia se traduz em um bando de vagabundos desocupados travestidos de intelectuais que gastam seus tempos filosofando sobre bobagens sem significado. Em resumo, não merecem crédito e muitas vezes (a grande maioria das vezes) são classificados como ativistas políticos com o propósito de derrubarem o líder com essa bobagem chamada ciência. O mesmo se aplica à imprensa, outra ameaça velada. Dessa forma, vidas inteiras dedicadas ao estudo e à pesquisa são menosprezadas de forma cruel e abjeta pelos líderes da escuridão. Exemplos não faltam.

O escárnio da ignorância anti-intelectual!

Dar voz à ignorância sob o pretexto de salvaguardar a democracia não é democracia. É crime contra a intelectualidade científica e a sociedade como um todo. Ser ignorante em determinados temas não é pecado ou um desvio de caráter qualquer. É, simplesmente, a falta de conhecimento em determinada matéria. Não diminui ninguém nem, tampouco, endeusa os detentores do saber. Sou ignorante em diversas disciplinas e recolho a minha insignificância intelectual sobre temas que desconheço. Não me sinto nem um pouco inferior por isso. Simplesmente não estudei a matéria e, portanto, não sou apto à discussão. Simples assim. A crueldade do obscurantismo é fazer com que as pessoas acreditem que, apesar de sua total falta de conhecimento, elas são aptas a defenderem bandeiras sobre temas que elas nunca, ou quase nunca, leram uma linha sequer! Só é possível fazer isso trazendo a academia ao patamar do leigo. Como? Descredenciando os credenciados. Fácil!

Eu sei que eles não sabem o que sabem!

Desacreditar o pensamento acadêmico-científico é a estratégia mais usada na construção de um estado obscurantista. Duas razões são evidentes:

  1. Fortalecimento da autoestima dos seguidores que se sentem inseridos no processo político-cultural, antes um mundo inabitável e, dessa forma, gratos ao líder pela “inclusão”;
  2. A manutenção do status quo em decorrência do apoio popular e a falta de oposição, às práticas nada ortodoxas, pelo descredenciamento dos que detêm o saber.

Nessa seara obscura, aberrações como as perseguições ao educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) associando sua maravilhosa obra no segmento da pedagogia crítica do século XX ao ativismo político é, talvez, um dos exemplos mais emblemáticos da tentativa de desconstrução do pensamento científico-acadêmico no Brasil de agora. Paulo Freire é considerado o mais proeminente pensador da pedagogia contemporânea. O acadêmico brasileiro mais premiado e homenageado de todos os tempos. Detentor do importantíssimo prêmio Educação pela Paz, conferido pela UNESCO, entre tantos outros não menos importantes. 29 títulos de Doutor Honoris Causa conferidos por universidades europeias e americanas. É o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo! É ou não é obscuro menosprezar tudo isso?! Como é possível achacar personalidades desse jeito? Apagando a luz!

Nunca foi tão fácil navegar na escuridão—Viva as redes sociais!

Se na Europa dos séculos XVI ao XIX o obscurantismo reinou para a manutenção do poder absolutista, onde as notícias para desacreditar a ciência corriam em passos lentíssimos, imagine no nosso século com a velocidade das redes sociais! Ficou muito mais fácil e o impacto é quase imediato e, portanto, muito mais devastador.

A ciência foi subvertida das universidades e inserida às redes sociais sob o relativismo da premissa: “as pessoas acreditam no que querem”. Não no que é fato, mas no que escolhem acreditar de acordo com as crenças do líder obscurantista. Os discípulos do obscurantismo “se informam” e compartilham o seu “saber” em canais do YouTube e grupos de WhatsApp, só para citar alguns meios. Nada contra, absolutamente, participo disso tudo, inclusive esse post vai, já já, ser baixado na plataforma e compartilhado nas minhas redes sociais. Mas que isso facilitou muito a propagação de “Fake News” e o sucateamento do conhecimento acadêmico-científico e o consequente ressurgimento do obscurantismo; não resta a menor dúvida.

Sendo assim, lideranças políticas que não eram nada no cenário político, de repente, viraram “mito”. Em consequência, nasce a extrema e obscura direita, cuja maior característica é o nacionalismo e o populismo: Áustria, Itália, Suécia, Espanha, Hungria, Polônia, entre alguns outros na Europa, e também no Brasil, Estados Unidos (de Donald Trump), Chile, Bolívia, também para citar alguns das américas. Mas como isso funciona?

O obscurantismo das redes!

As mídias sociais são pouco democráticas e nada científicas. Isto por que, democracia pressupõe a liberdade de expressão desde que a expressão se baseie na verdade.  Divulgação de Fake News, incitação à violência, desacato a autoridades constituídas e denegrir a imagem de instituições e/ou indivíduos; é crime previsto em lei. Não é democracia. Tampouco, as mídias sociais são científicas, visto que o saber se constrói com a análise crítica dos fatos e ideias a partir do debate. Como isso, o debate, deixou de existir na nossa sociedade; as redes sociais se transformaram em um meio adequado para o estabelecimento de líderes extremistas que se utilizam do obscurantismo para se perpetuarem no poder. Claro que existe vida inteligente nas redes sociais. Ela não é utilizada, única e exclusivamente, para manipular a opinião (se você chegou até aqui na leitura, já percebeu isso rsrsrs… desculpe! não resisti. O academicismo em excesso me sufoca), mas que a grande parte do conteúdo hoje é, essencialmente, manipulativo; é. Além disso, as redes são parciais, assim como o pensamento obscurantista. Como? Aí vai.

Meus amigos não têm defeitos. Os inimigos, quando não têm, eu coloco!

As redes sócias são “mundinhos” formados por grupos afins; ou seja, se limitam em compartilhar e “curtir” aquilo que os habitantes desse mundinho corroboram e a excluir os alienígenas que, vez por outra, vêm incomodar com os seus chatos e inconvenientes contrapontos. Diga-se de passagem, contraponto baseado na ciência tem alto nível de rejeição nos obscuros mundinhos das redes sociais (repito: há exceções). Não há como o conhecimento ser construído sem contrapontos. Dessa forma, o cenário mais propício para o estabelecimento do pensamento obscurantista é criado.

Além disso, o obscurantismo é extremamente parcial. A parcialidade no julgamento, seja de que causa for, me incomoda extremamente, sem trocadilho. Por exemplo, tenho um palpite muito forte, beirando a absoluta certeza, de que se Paulo Freire fosse da extrema direita, não seria tão despudoradamente achacado quanto é no Brasil de extrema direita de agora.   Acredito também, que se a decisão dos Estados Unidos de retirar as tropas do Afeganistão tivesse sido tomada pelo então Presidente, Donald Trump, os comentários dos seus apoiadores, que criticaram veementemente a decisão de Biden; seria diferente.

No obscurantismo o ato é considerado certo ou errado dependendo de quem o protagoniza. Baseio minha assertiva na observação da atitude de pessoas que ovacionam Olavo de Carvalho, que não tem o menor background acadêmico para se comparar a Paulo Freire, e demonizam Paulo Freire. O apoio incondicional dos cidadãos estadunidenses quando Trump decidiu construir o muro na fronteira que separa os Estados Unidos do México e às suas políticas anti-imigração (“America first!”), não foi um ato desumano, mas abandonar o povo afegão… em resumo, no obscurantismo, a beleza do quadro está na assinatura do pintor, não na arte em si.

O obscurantismo é assim: Ignorante; parcial; violento; insensato; antidemocrático; doloroso; cruel; sarcástico; impuro; doentio; escuro; trevas. Simples assim. Por favor, o último a sair acenda a luz!

Para quem quer um pouco mais de luz:

Nietzsche e a “Divinização do Diabo” (Nietzsche and the “Devil Divinization”)

[Resenha] Pedagogia Do Oprimido

Resumo do Livro: Pedagogia do Oprimido (Paulo Freire)

Isaac Asimov Laments the “Cult of Ignorance” in the United States (1980)

Trump Is Said to Be Preparing to Withdraw Troops From Afghanistan, Iraq and Somalia

Timeline of U.S. Withdrawal from Afghanistan—Key decisions by two administrations determined to end America’s longest war

Hydroxychloroquine and COVID-19: a tale of populism and obscurantism

O obscurantismo do século 21

Um basta à ignorância

O contra-iluminismo bolsonarista

2021-09-17T15:47:01-03:00 17 de setembro, 2021|Atualidade|0 Comentários

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