Escolas de Negócios – Conectando os Pontos

Escolas de Negócios – Conectando os Pontos

“Se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância” (Derek Bok)

Este post é sobre Educação, tópico pelo qual, como já falei em outros posts, eu sou perdidamente apaixonado! Mais especificamente, Educação Corporativa. Quando decidi fazer um blog fui, incisivamente de imediato, desencorajado por especialistas, amigos, mulher, filho, cachorro… a evitar “academicismos”, porque tal estilo não se aplica à linguagem “blogueira”.

A princípio concordei e cheguei a jurar de pés juntos que não cairia nessa armadilha (eu nem gosto muito da academia mesmo!). Mas eu tenho duas necessidades básicas quando escrevo: A primeira é não me apropriar indevidamente de ideias e conceitos alheios, por ir de encontro aos meus princípios formativos e por achar que é uma baita sacanagem com o Autor(a). A segunda necessidade é que eu preciso dar consistência aos meus argumentos. Principalmente, quando o assunto é realmente sério.

Não gosto que as pessoas duvidem do que estou falando. Sei que é um direito de quem lê meus posts, mas me sinto na obrigação de fornecer algumas fontes para dar ao leitor(a) a chance de criticar consistentemente. Sei que não sou o dono da verdade, nem pretendo ser, mas gosto de credibilidade. Então, minha gente, esse post vai meio (ou inteiro) com cara de academia mesmo (prometo que tentarei não fazer mais!).

A Era do Conhecimento

A demanda pela aquisição de conhecimento especializado nunca foi tão alta quanto nos tempos atuais. É sabido que vivemos a “Era do Conhecimento”. Com muita propriedade, Davis, Evans e Hickey apud Andrews (2004, p.4) afirmam que há um consenso de que o momento atual é descrito por “uma economia em que a produção, distribuição e utilização do conhecimento é o principal motor do crescimento, criação de riqueza e de emprego em todos os setores”.(“an economy in which the production, distribution and use of knowledge is the main driver of growth, wealth creation, and employment across all industries”.).

É notório que essa demanda surge a partir da necessidade imposta pelo atual momento que sugere a inovação além da mera criatividade; a informação fidedigna além do “feeling” intuitivo; a gestão participativa além do comando hierárquico proveniente das camadas gerenciais mais elevadas da estrutura organizacional. Esse novo momento do mundo corporativo sugere também uma capacidade de relacionamento interpessoal apropriado no ambiente de trabalho que seja capaz de viabilizar a cooperação na realização das tarefas explorando o máximo das capacidades individuais. Elucida a interdisciplinaridade; a visão sistêmica e holística do ambiente de trabalho na interpretação adequada dos cenários de negócios para a elaboração das estratégias apropriadas.

Pesquisas ao redor do mundo têm comprovado que a aquisição de conhecimento técnico especializado é o maior responsável pelo aumento da produtividade, satisfação do colaborador no exercício de suas tarefas e diminuição do índice de acidentes de trabalho. Como diz Ibrahim, F. e Reid, V. apud Carlucci e Schiuma (2006); Pan e Scarborough (1999), “conhecimento é reivindicado como o principal fator distintivo do sucesso do negócio e da vantagem competitiva”. (“knowledge is claimed as the main distinguishing factor of business success and competitive advantage”.).

Embora seja evidente a importância do conhecimento como mola propulsora de vantagens competitivas duradouras e a enorme oferta de instituições educacionais capacitadas à transferência do saber; observamos uma desconexão, por parte dos graduandos, no que se aprende nas escolas de negócios e o que se aplica efetivamente no ambiente organizacional.  Corroborando com o exposto, Bennis, W. e O’Toole, J, (2005) afirmam que “empregadores estão percebendo que os MBAs recém-formados, mesmo aqueles das melhores escolas—em alguns casos, especialmente aqueles das melhores escolas—não possuem as habilidades que as organizações precisam”. (“employers are noticing that freshly minted MBAs, even those from the best schools—in some cases, especially those from the best schools—lack skills their organizations need”.). Mas por que isso vem acontecendo? Estes autores descrevem perfeitamente essa questão quando argumentam:

“Neste modelo científico, a universidade existe principalmente para apoiar os interesses do douto. Para a maior parte, as universidades aceitam este acordo e a premissa intelectual sobre a qual se apoia: a saber, que as universidades contribuem para o avanço da sociedade apoiando cientistas que empurram para trás as fronteiras do conhecimento. Eles deixam as implicações práticas para os outros”. (“In this scientific model, the university exists primarily to support the scholar’s interests. For the most part, universities accept this arrangement and the intellectual premise on which it rests: namely, that universities help society advance by supporting scientists who push back the boundaries of knowledge. They leave the practical implications to others”.).

Em outras palavras, as escolas de negócios (universidades) valorizam por demais as produções e modelos científicos e o status que esse direcionamento as confere que esquecem as implicações práticas que envolvem o mundo dos negócios e como lidar com isso, e o que é pior—como preparar o aluno para enfrentar esse desafio. Os MBAs recém “formados” não veem muita conexão, ou não veem conexão nenhuma, com o que é aprendido (visto) nas universidades e o mundo real dos negócios que eles interagem.

Modelo Pedagógico

Esse modelo pedagógico positivista utilizado pelas escolas de negócios, ressaltando que não é, em absoluto, um “privilégio” das escolas brasileiras, não percebe que não é pela quantidade de conteúdo que se adquiri mais e melhor conhecimento. Não se admira que alguns bem sucedidos gerentes não possuam um MBA e alguns nem se graduaram. Não destituímos o valor das escolas de negócios, e o conhecimento teórico por elas oferecido, mas acreditamos que ao longo dos anos, pela pressão do competitivo mercado de educação corporativa, o seguimento se viu obrigado a agregar valores aos seus serviços para vencer a concorrência baseado na premissa do “quanto mais, melhor” ignorando as reais necessidades do seu cliente final—as empresas.

Não são os alunos que são os clientes das escolas de negócios, ao contrário do que se pensa. Os alunos são o meio através do qual o serviço (educação corporativa) é distribuído pelo produtor (as escolas) ao cliente final (as organizações). Portanto, as necessidades e anseios que devem ser atendidas são das organizações e não dos alunos. Os conteúdos programáticos devem ser elaborados de acordo com as necessidades e anseios das organizações e, obviamente, de acordo com o interesse do educando, mas não o privilegiando como se o mesmo fosse o cliente final.

Não há dúvida do valor da academia para o desenvolvimento do mundo corporativo e da sociedade como um todo; todavia, o que observamos é uma perda de rumo que deve ser retomado como cita Fred R. David e Forest R. David, apud Pfeffer e Long, (2002, p. 80), “Talvez tenha chegado o tempo de realinhar os currículos escolares de negócios com as necessidades corporativas”.(“Perhaps the time has come to realign business school curricula with corporate needs”.). Essa é a base sobre a qual se justifica a criação de um programa de capacitação que alie as teorias acadêmicas com uma prática de gestão holística capaz de criar vantagens competitivas duradouras para o cliente final das escolas de negócios—as organizações.

As Organizações Modernas

Para as organizações modernas, muito mais importante do que criar vantagens competitivas é criar um mecanismo capaz de mantê-las por um longo período de tempo.  Sem dúvida, essa é a nova ordem gerencial. O que se tem observado é que o modelo atual, distribuído pelas escolas de negócios, fornece uma forma de competir totalmente ultrapassada que se baseia em táticas estanques fundamentadas na premissa “diferenciação – baixo custo” e tantas outras teorias obsoletas ensinadas nas escolas de negócios mundo a fora. Além do mais, disciplinas totalmente irrelevantes para o processo de gestão corporativa foram agregadas ao currículo, como já mencionado, obedecendo à premissa do quanto mais; melhor. Não é possível, nos tempos atuais, uma visão tão reducionista a respeito de competitividade. No início da década de 1980 funcionou bem, mas já faz quase 40 anos! Como dizem meus queridos amigos nordestinos: “Pelas caridades!” Já deu!

Sendo assim, uma reformulação nos currículos das escolas de negócios se faz urgente. Capacitar profissionais de negócios, a nível de liderança, através da oferta de um conteúdo programático transdisciplinar de forma prática e objetiva (e relevante!) lembrando que o cliente final são as organizações; é o primeiro passo. Proporcionar aos alunos uma visão inovadora em relação à gestão de negócios, focando na necessidade de criação de um ambiente corporativo voltado para o constante aprendizado que seja capaz de criar, identificar, desenvolver e aplicar o conhecimento adquirido na geração de vantagens competitivas duradouras; é fundamental. Em outras palavras propiciar ao aluno, que é o meio através do qual o conhecimento é passado adiante, um conteúdo útil aplicável que, de fato, o transforme num agente de mudanças organizacionais. Um currículo que verdadeiramente o capacite em vez de deixá-lo com aquela sensação horrorosa, no primeiro dia de trabalho, de não ter aprendido nada de útil na universidade!

Bibliografia:

DAVIS, Heather; EVANS, Terry e HICKEY, Christopher. A knowledge-based economy landscape: Implications for tertiary education and research training in Australia. Journal of Higher Education Policy and Management.Vol. 28, Nº 3, pp. 231-244, Australia, Nov. 2006. Disponível em: http://www.academia.edu/179354/A_knowledge_economy_landscape.  Acesso em: 18 maio 2015.

FRED, R. David e FOREST, R. David. Are Business Students Learning What Employers Need? Business Horizons journal, Indiana University, 2010. Disponível em: http://strategyclub.com/Are%20Students.pdf. Acesso em: 21 maio 2015

IBRAHIM, F. e REID, V. What is the Value of Knowledge Management Practices? Electronic Journal of Knowledge Management Vol. 7 Issue 5, pp. 567 – 574, Inglaterra, 2009. Disponível em:Acesso em: https://scholar.google.com.br/citations?view_op=view_citation&hl=pt-BR&user=5jYlMiMAAAAJ&citation_for_view=5jYlMiMAAAAJ:u-x6o8ySG0sC. Acesso em 18 maio 2015.

SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina—Arte e Prática da Organização que Aprende. 19ª Ed. Rio de Janeiro: Best Seller Ltda, 2005.

STOLTZ, Paul G. Adversity Quotient @ Work—Putting the Principles of AQ Into Action. 1ª Ed. New York: Harper Collins Publishers Inc, 2000.

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do Cisne Negro—O impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: Best Seller Ltda, 2008.

WARREN, B. e JAMES, O. How Business Schools Lost Their Way. Harvard Business Review, USA, 2005. Disponível em: https://hbr.org/2005/05/how-business-schools-lost-their-way. Acesso em: 21 maio 2015

W. CHAN KIM e RENÉE MAUBORGNE. A Estratégia do Oceano Azul—Como criar novos mercados e tornar a concorrência irrelevante. 34ª Ed. USA: Harvard Business School publishing Corporation, 2005.

2019-02-06T21:22:38-03:00 19 de junho, 2017|Educação Corporativa|0 Comentários

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