Por que o Dragão Vermelho cresceu tanto?

Por que o Dragão Vermelho cresceu tanto?

“Não interessa se o gato é branco ou preto, o que importa é que ele mate o rato”. (Deng Xiaoping)

Vai entender a China!

Quem é o pai da criança? E o padrinho?

Por que a economia chinesa explodiu? O despertar do Dragão Vermelho!

Para onde estamos indo?

A China é uma ameaça ou uma oportunidade?

Quando o Ser lembra que é Humano!

Esse post é sobre a República Popular da China. Nos últimos tempos, a China tem sido tópico de calorosas discussões acadêmicas e também divertidos “papos de butiquim” para aqueles menos “academizados”. Depois do advento Covid19 então… Vou me situar entre os dois polos; ou seja, não pretendo produzir um trabalho acadêmico (já passei dessa fase) tampouco viajar na maionese entre uma cerveja e outra.

De antemão esclareço que o objetivo não é motivar uma discussão político ideológica. Longe disso! O que pretendo é dar a minha humilde contribuição no sentido de entendermos, ou começarmos a entender, esse fenômeno econômico chamado China. Entretanto, que fique claro que sou um liberal e, portanto, um entusiasta da livre iniciativa, de um estado muito pequeno, da competitividade e da meritocracia.

Vai entender a China!

Não dá para colocar a China toda em um post de poucas palavras. Portanto, vou me deter ao período que trouxe a reforma do sistema econômico transformando a China em uma economia aberta; isto é, a partir de 1978.  Vale a pena ressaltar que em 1820 a China representava 32,9% do PIB global. A era Mao Tsé-Tung (1949-1976), que implantou o comunismo, levou o país à completa miséria. Hoje, a China vem crescendo ano após ano e já representa 20% do PIB global; ou seja, a China era a maior economia do mundo no século XIX, ficou adormecida por um longo período, até que alguém decidiu despertar o Dragão; mas, quem foi?

Quem é o pai da criança? E o padrinho?

Deng Xiaoping é o pai da criança. O Capitalismo Ocidental é o padrinho. Foi ele, Xiaoping, que promoveu a mais contundente reforma econômica da China “Comunista” abrindo sua economia a investimentos estrangeiros e ao mercado global. Essa decisão foi um divisor de águas para a transformação de uma China assolada por conflitos sociais; fome; desiludida com o comunismo e mergulhada no caos institucional promovido pela era Mao no que a China é hoje.

A reforma econômica promovida pelo Supremo Líder Chinês fundamentou-se em um modelo intitulado de ZEEs (Zonas Econômicas Especiais). O modelo permitiu, e facilitou, a entrada de empresas multinacionais em seu território sob uma básica e interessante premissa: as empresas estrangeiras teriam que se associar a uma empresa chinesa, estatal ou não, através de uma joint venture. Daí a troca de know-how seria inevitável, entendeu?

Por que a economia chinesa explodiu? O despertar do Dragão Vermelho.

Atraídas pela farta (fartíssima) mão-de-obra barata (baratíssima) e atraentes subsídios fiscais, as gigantes multinacionais arrumaram as malas; afinal, era (e continua sendo) muito mais barato produzir na China e repatriar o capital do que produzir em solo doméstico. Dessa forma, multinacionais como IBM; Volvo; Wal-Mart (adquiriu bens no valor de US$ 18 bilhões na China); WEG (brasileira); Marcopolo (brasileira); Tesla; Mercedes Bens; Audi; Adidas; Nike; General Eletric (GE); Fiat; Samsung; Apple … a lista é imensa; decidiram se mudar.

Sendo assim, as gigantes multinacionais do mundo inteiro aportaram em solo chinês sem fazer a menor cerimônia quanto à ideologia ditatorial do “Comunismo” de Deng Xiaoping. A China também não se sentiu ameaçada pelo famigerado Capitalismo Yankee. É interessante como o Capitalismo e o Comunismo se retroalimentam desempenhando o papel ora de hospedeiro, ora de vírus. Daí a celebre frase de Deng Xiaoping, o mais Capitalista dos Comunistas que eu conheço: “Não interessa se o gato é branco ou preto, o que importa é que ele mate o rato”. Deu certo, a economia cresceu exponencialmente.

Pateticamente, tanto os acadêmicos quanto os do “papo de butiquim” seguem discutindo o valor de princípios ideológicos no meio dessa bagunça toda. Resumindo, Deng Xiaoping é o pai da nova China Comunista de mercado e o Capitalismo Ocidental é o padrinho. Ambos fizeram um excelente papel na criação do dragãozinho. Agora que ele cresceu, ninguém tem do que reclamar. Um amigo meu diz que o sonho de todo comunista é morar em um pais capitalista. É verdade e eu vou além dizendo que todo capitalista adora explorar a mão-de-obra barata dos comunistas. Conhece aquela história de uma mão lava a outra e ambas lavam a cara?

Para onde estamos indo?

Tenho pouquíssimas certezas e muitas dúvidas quanto ao que vem depois que isso tudo passar. A certeza que tenho é que a economia chinesa vai sofrer um baque significativo ainda não experimentado em virtude da pandemia. É provável que experimente sua primeira retração nos últimos 40 anos. Também acredito que o cenário atual de subsídios e mão-de-obra barata ofertada às empresas estrangeiras diminua paulatinamente provocando um “retorno ao lar”. A Samsung já anunciou sua saída. Motorola, LG e Apple deram férias coletivas e analisam se é viável a permanência. 

Para a China a debandada não significa muito, considerando que ela já não precisa mais tanto das empresas estrangeiras. Possui know-how, infraestrutura, uma farta mão-de-obra barata e um câmbio que flutua de acordo com as suas necessidades para produzir muito, com qualidade e preço baixíssimo; ou seja, hoje compete de igual para igual com qualquer um no mundo. A declaração de Robin Page, Vice-Presidente Sênior de Design da montadora Volvo atesta a qualidade dos produtos made in China: “os Volvos feitos na China têm melhor qualidade do que os fabricados na Europa.”

Esse movimento backing home das grandes multinacionais provocará, acredito, uma reengenharia do sistema econômico global, estabelecendo uma mudança na forma de relacionamento entre as nações. O crescimento de mercados domésticos diminuirá a “dependência” internacional quanto aos bens de consumo. Acredito que as preocupações maiores serão voltadas para o abastecimento doméstico (microeconomia) limitando o comércio global (macroeconomia). Não é uma previsão. É uma crença.

Acredito também que as práticas chinesas quanto ao confinamento, abate e consumo de animais silvestres sofrerão drásticas mudanças frente às pressões internacionais e domésticas. Hoje, cerca de 57% da população já não concorda com essas práticas e nem consomem os produtos oriundos dela.

Acredito, e anseio, que olharemos para os nossos recursos de forma mais sustentável, mudando nossas práticas de produção e hábitos de consumo. O planeta precisa respirar, para o bem de todos. Fontes de energia limpa irão, definitivamente, suplantar as poluentes utilizadas hoje. Adeus carvão e petróleo, se Deus quiser! Seremos também mais solidários uns com os outros e menos exigentes quanto aos apelos de consumo desenfreado. Acredito em um momento de introspecção individual que resultará em uma sociedade mais harmônica. Um novo momento slow down no frenesi nosso de cada dia. Repito; acredito e anseio!

Não acredito que haja um boicote aos produtos made in China, como tem sido postulado pelos discípulos do apocalipse! Se você é um apoiador dessa conduta de consumo, mude-se para Marte. Vai ser difícil sobreviver aqui. E, mais importante, lembre-se que rolinho primavera; harumaki; yakissoba; banana caramelada; chop suey de legumes, frango, carne, camarão; frango xadrez… tudo isso está incluído na lista made in China. Vai encarar? Eu tô fora!

A China é uma ameaça ou uma oportunidade?

O que você acha de um mercado de 1.4 bilhão de pessoas com poder de consumo crescente e de economia aberta? Ver isso como uma ameaça é sofrer de delírio persecutório. Achar que a China espalha vírus para crescer economicamente também é um delírio. A China é a maior exportadora do mundo. Precisa de economias consumidoras fortes. Se a pandemia está sangrando a economia global, como isso poderia ser bom para a China? Vale a pena ressaltar que o PIB chinês vem crescendo desde 1976 e, certamente, experimentará sua primeira queda em 2020. O fato da China ter aumentado suas exportações de materiais hospitalares e equipamentos de proteção não compensa as perdas das exportações de outros segmentos, principalmente dos eletroeletrônicos. Devemos considerar ainda que ela tem feito doações volumosas dos referidos itens.

O cenário com o advento da pandemia aponta para uma queda na produção industrial, que havia crescido 6,9% em dezembro e caiu 13,5% em janeiro e fevereiro, com relação ao mesmo período do ano anterior. Retração mais significante desde 1990. Na comparação anual, o investimento estrangeiro teve uma queda de 24,5% em janeiro e fevereiro. Na mesma retórica, investimentos privados despencaram 26,4%. O varejo caiu 20,5%. A taxa de desemprego subiu de 5,2%, em dezembro, para 6,3% em janeiro. Também a maior alta desde de 1990. Para quem achava que o vírus ia aquecer a economia, foi um tremendo tiro no pé!

Outro “papo de butiquim” que não faz o menor sentido é essa história que a crise econômica mundial provocaria a queda do valor das ações das empresas mundo afora, permitindo a compra por preços mais baixos pelos chineses e o consequente controle acionário. De fato, a crise provoca a queda no valor das ações de todas as empresas de capital aberto, inclusive as chinesas. Além do mais, o mercado é livre; ou seja, todo mundo pode comprar e isso inclui os Estados Unidos que têm muito mais dinheiro que a China; ainda. O PIB dos Estados Unidos em 2019 foi de U$ 22,08 trilhões, enquanto que o da China foi de U$ 14,83!

Quando o Ser lembra que é Humano!

A pandemia tem provocado um “arranca rabo” internacional sem precedentes. Não faltam acusações e críticas por todos os lados quanto à distribuição de medicamentos, materiais, equipamentos e quanto às medidas adotadas para a contenção da pandemia por cada país.

Nessa batida, o Brasil já culpou a China pela disseminação do vírus, que retrucou com ameaças de retaliações comerciais. A Espanha e a Turquia trocaram farpas pela posse de centenas de respiradores (que de fato eram da Espanha). Estados Unidos e China encontraram mais um motivo para se engalfinharem. A França e a Alemanha negaram ajuda à combalida Itália. Conflitos na União Europeia gerados pelo fornecimento de máscaras aos membros mais afetados e com menos recursos. E por aí vai… A ansiedade gerada pelo momento tenso nos torna mais egoístas do que normalmente somos.

Entretanto, alguns movimentos nos fazem crer que há esperança para a raça humana. O que mais me comoveu, até aqui, em toda essa história foi a ajuda da China à Itália, talvez o pais mais machucado até o momento pela pandemia, sem minimizar a dor de nenhum outro. Roma foi socorrida fartamente com suprimentos médicos, kits para testes e um pelotão de médicos chineses reconhecidos como heróis pelos italianos. A hashtag #GrazieCina, espalhada nas mídias sociais italianas, é o reconhecimento da ajuda chinesa, ao mesmo tempo que declara o perdão.

A China não é a culpada. A China é a responsável. Existe uma distância abissal entre culpa e responsabilidade. Nossa visão ocidental sempre descriminou os orientais. Somos xenófobos e preconceituosos quando se trata do oriente, principalmente do oriente “comunista”. Os italianos dão uma lição ao mundo de gratidão, perdão e misericórdia de valor inestimável. Bravíssimo!

Se você chegou até aqui, parabéns! Você faz parte de um grupo de pessoas que diminui a cada dia: grupo das pessoas que leem longos textos. Obrigado pelo tempo despendido. Meus posts, em geral, giram em torno de 500 a 700 palavras. Não gosto de cansar ninguém e sigo a tendência do cada vez menos leitura. Mas, por favor, compreenda. É sobre a China! Não dá para ser pequeno. Até breve.

Saúde!

Segue alguns links caso você queira se aprofundar no assunto:

Why China is growing so fast?

Volvo Car Corporation announces its China strategy.

Proposed Volvo-Geely merger could create China’s first global auto powerhouse.

A emergência do modelo de desenvolvimento chinês.

PIB da China deve ter a primeira queda em 40 anos, diz estudo.

A China é comunista ou capitalista?

O segredo dos preços chineses.

O Banco Mundial e o modelo de crescimento da China.

A próxima China.

China: estabilidade e crescimento econômico

Quarenta anos das reformas de Deng Xiaoping e o renascimento da China como potência.

Por que a Apple fabrica o iPhone na China?

O cruzeiro em que economistas ocidentais ajudaram a criar o ‘socialismo de mercado’ na China.

Por que o modelo de fabricação chinês possui muitas vantagens competitivas?

É assim que a China quer dominar o mundo.

Dados do Banco Mundial – Gráfico PIB Estados Unidos, China e Japão

Complexidade econômica da China.

Here are 4 charts that show China’s rise as a global economic superpower.

China em números.

2020-05-04T10:34:55-03:00 20 de abril, 2020|Atualidade|0 Comentários

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