Dentro da Caixa—A prisão dos Paradigmas!

Dentro da Caixa—A prisão dos Paradigmas!

Não se mexe em time que está ganhando! Será?

Começaremos hoje uma série de dois posts sobre paradigmas. Neste primeiro, daremos dois exemplos emblemáticos para ilustrar o tema, através das fascinantes histórias dos relógios mecânicos versus os eletrônicos e a quartzo e da fotografia analógica versus a digital.   No próximo post, semana que vem, responderemos às perguntas:

  1. O que é um Paradigma?

  2. Como eles são estabelecidos?

  3. Como quebrar um Paradigma?

  4. Quem pode quebrar um Paradigma?

Conto com sua presença no desdobramento desta sequência e, desde já, deixo o convite para você participar deste estudo enviando seu comentário e outros exemplos de paradigmas que você queira compartilhar, ok? Ao trabalho!

Existe uma cultura empresarial que estabelece caminhos que, à primeira vista, parecem ser os únicos capazes de gerar vantagens competitivas sustentáveis. Algumas organizações se estabelecem ao longo de décadas firmadas em estratégias consideradas “as melhores práticas (ou únicas)” capazes de mantê-las competitivas e líderes de mercado. Funciona bem; até certo ponto!

O tema de hoje é Paradigma. No mundo dos negócios, não existe receitas de bolo infalíveis. O ambiente corporativo é dinâmico e não aceita a premissa de que “time que está ganhando não se mexe”. O que funciona hoje pode ser exatamente o fator que emperra a manutenção da posição de liderança e o crescimento de amanhã, como veremos nos dois exemplos que seguem.

Exemplo 1—O tempo não para!

Todos nós conhecemos pelo menos uma história de organizações que se tornaram líderes de mercado e dominaram seus segmentos de indústria, por décadas e décadas, fundamentadas no seu jeito absolutamente especial e único de produzir seus produtos/serviços e comercializá-los. Um bom exemplo é a indústria relojoeira suíça. Vamos a ele.

Por mais de três séculos os suíços dominaram o mercado de relógios mecânicos no mundo. Foram líderes absolutos neste segmento representando quase 70% do total das vendas mundiais. Famosos pela meticulosidade e perícia na construção de pequeninas peças mecânicas capazes de desempenhar funções precisas de marcação do tempo, com 100% de chances de acerto, aliada ao requinte artesanal de um design incomparavelmente sofisticado; fizeram dos suíços referência mundial, muito merecidamente, no segmento relojoeiro. Não produzem relógios. De fato, produzem joias que marcam o tempo!

Para os suíços, relógio é sinônimo de requinte, precisão e longevidade. Ou seja, tem que ser sofisticado e bonito, marcar o tempo sem margem de erro e durar para sempre. Qualquer “coisa” que se disponha a marcar o tempo fora dessas características; é qualquer “coisa”, não um relógio. E, dessa forma, criou-se o paradigma do relógio suíço. E desse jeito os suíços dominaram o mercado por séculos.

Mas, sabe aqueles dias suíços chuvosos e frios em que não se tem nada para fazer? Acho que foi num desses dias, mais precisamente em 1954, que um engenheiro suíço, Max Hetzel, decidiu sair de dentro da caixinha e começou a desenvolver um projeto de “relógio” diferente. Hetzel desenvolveu um relógio de pulso eletrônico usando um diapasão eletricamente carregado alimentado por uma bateria de 1,35 volts. Em 1960 a Bulova introduziu este “relógio” no mercado, sob o nome de Accutron, tornando-o famoso.

Os suíços adoram precisão, como já foi dito. Dessa forma, acreditaram que um “relógio” usando um diapasão eletricamente carregado alimentado por uma bateria de 1,35 volts; poderia atrasar alguns milionésimos de segundos! o que, para os suíços; é a morte! Daí surge o “relógio” a Quartzo (relógio bem entre aspas mesmo, porque tudo isso, para a indústria suíça daquele tempo, era qualquer “coisa”; menos relógio). Quartzo é um cristal capaz de obter maior precisão em um mecanismo de relógio eletrônico. Dessa forma, cinco anos de pesquisa foram despendidos para que os suíços chegassem à conclusão de que era uma ideia interessante, mas não suplantaria o sucesso dos seus relógios mecânicos de verdade por séculos vitoriosos! E o projeto ficou meio esquecido.

Por outro lado, os japoneses, que há algum tempo iam observando de longe o movimento dos suíços em direção aos relógios eletrônicos e já, como sempre, copiavam os projetos, como é de praxe, aperfeiçoando-os, como também é de praxe; decidiram entrar pesado no segmento. E a “infalível” indústria relojoeira suíça balançou, mas não caiu! Mas faltou pouco, considerando a quase absoluta liderança.

Resumo da opera: Os japoneses quebraram o paradigma do relógio que, segundo os suíços, era requinte, precisão e longevidade. Para os japoneses, não precisa ter o requinte de uma joia, bastava ser “bonitinho”. Além disso, se marcasse as horas com uma certa precisão, estava ótimo. E mais importante, não precisa ser “imortal, posto que é chama, mas que fosse infinito enquanto durasse”. Ou seja, tipo descartável mesmo, entente? Finalmente, que tivesse um preço acessível que coubesse nos bolsos de todos. Eureka! Eis um novo líder de mercado. Claro que os relógios suíços continuam tendo seu espaço na indústria, mas os tempos gloriosos de outrora se foram! A ironia do destino é que tudo começou com um suíço num dia chuvoso e frio da suíça…

Exemplo 2—Todo mundo quer ficar bem na foto!

Outra história que eu acho simplesmente fantástica sobre paradigmas, é a melancólica caminhada da Kodak. Inclusive já mencionei em outros posts este caso, mas nunca é demais lembrar.

A renomada Kodak, fundada em 1888, por um século foi líder absoluta de mercado de fotografia analógica. Detinha 90% das vendas de filmes e 85% das vendas de câmeras nos EUA. Números impressionantes! Particularmente, não conheço nada, sequer, semelhante! A primeira câmera analógica para não profissionais foi lançada no mercado por ela. Chegou a ter 144 mil colaboradores ao redor do mundo. Hoje, agoniza respirando por aparelhos e insistindo a não falir graças aos esforços de seus 8000 colaboradores remanescentes que se dedicam louca e apaixonadamente à pesquisa de novos produtos que viabilize a não (mas quase iminente) falência da empresa.

Tudo isso aconteceu por causa do advento da fotografia digital. A Kodak não acreditou que um dia a fotografia digital pudesse suplantar a analógica, da qual ela era líder absoluta. Só poderia existir um tipo de fotografia sobre a face do planeta terra (universo, na verdade): a analógica! Focou, única e exclusivamente, no produto que ela produzia e, diga-se de passagem, produzia muito bem. Não se informou, devidamente, quanto aos novos movimentos que o mercado estava desenhando e pagou (continua pagando) um alto preço pela desinformação.

Todos nós sabemos que a fotografia digital engoliu a analógica, por motivos óbvios! O paradigma da fotografia foi dilacerado! E a fotografia analógica sucumbiu até à morte! (quase morte). Ironicamente, a Kodak foi quem, em 1975, criou a primeira câmera digital do mundo. O que torna a história ainda mais trágica! Não acreditou que o seu próprio invento pudesse ser um jeito novo e melhor de fazer aquilo que ela já fazia há tanto tempo com sucesso. Ledo engano!

A prisão dos paradigmas cobra um preço alto para quem insiste em ficar dentro da caixinha!

Até semana que vem quando concluiremos nossa sequência de dois posts sobre paradigmas respondendo às perguntas:

  1. O que é um Paradigma?

  2. Como eles são estabelecidos?

  3. Como quebrar um Paradigma?

  4. Quem pode quebrar um Paradigma?

Sucesso e até lá!

2018-11-19T14:19:17-03:00 19 de novembro, 2018|Empreendedorismo|2 Comentários

2 Comentários

  1. Ana Raquel 23/11/2018 at 18:18 - Reply

    Mais um excelente texto!

    • Ary Moreira 23/11/2018 at 18:53 - Reply

      OPA! Mais uma vez, obrigado Ana! Bom saber que vc se tornou uma leitora assídua e, melhor, tem gostado das publicações. Seu feedback é importante e muito bem-vindo. Obrigado!

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