Chegou a vacina! Quem vai querer voltar para o escritório?

Chegou a vacina! Quem vai querer voltar para o escritório?

“Pela janela do quarto pela janela do carro

Pela tela, pela janela

Quem é ela? Quem é ela?

Eu vejo tudo enquadrado

Remoto controle (Adriana Calcanhoto)

Quem nunca comeu melado…

Não será fácil retornar ao antigo normal de acordar cedo, se arrumar, pegar o transporte e ir para o escritório. As pessoas e empresas que percebiam mil obstáculos quanto ao trabalho remoto já começam a mudar suas opiniões após o longo período de confinamento provocado pelo momento pandêmico que ainda estamos vivendo. De repente, a turma gostou do “experimento” e trazê-los de volta para o escritório não será uma tarefa simples.

Apesar do trabalho remoto ser uma realidade no mundo já há algum tempo, a pandemia que nos assolou, sem dúvida nenhuma, encorpou essa prática. Em 2019 nos EUA, por exemplo, 10 milhões de trabalhadores, aproximadamente, já trabalhavam remotamente por questões estratégicas; entretanto, o que era uma escolha, passou a ser uma condição sem a qual não seria possível manter o nível de produtividade estável durante o período de pandemia. Mas quando tudo isso acabar? Será que vamos querer voltar à antiga rotina?

Será que o que era um meio virou um fim?

As empresas encontraram no trabalho remoto um meio para manter a produtividade minimamente estável durante o período de confinamento, que ainda está em curso. Não foi uma escolha. Foi uma necessidade. Dessa forma, a ideia resumia-se, basicamente, em fazer em casa aquilo que, até então, fazia-se no escritório. Empregadores e empregados não tiveram tempo para analisar a mudança. Tinha que ser feito e ser feito rápido. Claro que mil dúvidas, de ambos os lados surgiram:

Como vou conseguir me concentrar em casa, já que todos (mulher, marido, filhos, cachorro…) também estão em casa?

Como posso avaliar o desempenho do meu pessoal remotamente?

E se a internet cair?

Como vou manter o clima de convivência do pessoal à distância?

Qual será o meu horário de expediente?

Como…?

Todos esses questionamentos nos forneceram ferramentas úteis que nos permitem, hoje e ainda em curso, avaliar o custo-benefício da “remotabilidade”. Claro que existem vantagens e desvantagens e cada caso é um caso. Gerenciar tudo isso requer adaptabilidade e um novo modelo de gestão. Separei alguns pontos que classifico como nevrálgicos nessa caminhada; mas, obviamente, não esgotam o assunto. Vamos a eles:

  • Avaliação de desempenho

À primeira vista, a mudança forçada era a única alternativa para se manter vivo. Dessa forma, muitos gerentes se contentavam em saber que o seu pessoal estava na ativa e o rendimento era o “menos importante”. Entretanto, não durou muito tempo para se perceber que o nível mínimo de produtividade precisava ser mantido. Mas como avaliar isso à distância?

No escritório, quando algo não vai bem, nos reunimos e em uma “conversinha” rápida, aparamos as arestas. Remotamente, precisamos de um horário comum a todos, um aplicativo que nos permita dividir a tela do computador com todos, uma conexão de internet estável para todos e a concentração de todos em meio às interferências domésticas. Óbvio que dá mais trabalho, mas o resultado são reuniões mais estruturadas e, portanto, mais eficazes. Por outro lado, se algum ponto importante passar despercebido, retomar a conversa requer novamente o mesmo planejamento, enquanto que no escritório basta bater à porta ao lado.

  • Parâmetro de desempenho

A maioria dos “gerentes remotos” de primeira viagem foram confrontados com duas premissas equivocadas em relação ao trabalho remoto:

  1. Trabalhamos mais em casa porque o trabalho está à mão
  2. Trabalhamos menos em casa porque sofremos interferências domésticas distrativas

Nem uma coisa nem outra. Tudo é questão de adaptabilidade. Organização e, sobretudo, disciplina, são as palavras de ordem no trabalho remoto. Sendo assim, no primeiro momento, a melhor estratégia é baixar a expectativa de desempenho para que os trabalhadores remotos estreantes se adaptem ao novo ambiente. Mas o primeiro momento tem prazo de validade. As exigências quanto aos parâmetros de desempenho são as mesmas, remotamente ou presencialmente. “O show não pode parar!”

  • Comunicação

O remoto não é a mesma coisa que o presencial. Experimente uma conversa com um amigo remotamente e presencialmente e constate. Parece óbvio, mas a gerência precisa ter isso muito claro. Checar se as informações passadas, como expectativa de desempenho, por exemplo, foram compreendidas sem ambiguidades remotamente, não é o mesmo que checá-las olho-no-olho. Em outras palavras, no escritório temos mais tempo para explicar o que não foi entendido rapidamente porque o feedback é imediato. Remotamente, considerando todas as circunstâncias operacionais para a comunicação, se alguma dúvida pairar, a resposta não será imediata comprometendo a produtividade. O que fazer, então?

Não é uma pergunta simples de se responder, mas o que julgo ser mais apropriado é, após as informações terem sido passadas, pedir que o colaborador devolva o que entendeu tipo: “me explique o que você entendeu?” Se a conversa for em grupo, peça para que todos, a seu tempo, resumam o que entenderam. Continuará não sendo a mesma coisa que o feedback presencial, mas vai minimizar possíveis confusões.

  • Convivência e compartilhamento de visões

Talvez seja esse o ponto mais complicado de todos da remotablilidade. Tenho batido insistentemente nessa tecla porque tenho a convicção de sua importância na elaboração de estratégias geradoras de vantagens competitivas sustentáveis. Não foi à toa que, em 2018, a “IBM interrompeu seu programa de trabalho remoto, empurrando milhares de funcionários de grupos principais que apoiam suas marcas de volta ao escritório”. (“IBM stopped their remote-working program, pushing thousands of employees from core groups that support their brands back to the office”). (Click aqui para saber mais). Por que investir tanto dinheiro nisso?

O intuito era único e exclusivo: propiciar a interação entre os colaboradores e o consequente compartilhamento de visões. Uma pequena fortuna foi investida neste processo porque, logicamente, a expectativa de criação de estratégias geradoras de vantagens competitivas sustentáveis era absolutamente certa!   Ironicamente, dois anos mais tarde a esta ousada manobra, a IBM teve que retornar todo o seu pessoal para suas casas, de novo, em virtude da pandemia. Dizem que a vida não é justa. Acho que, às vezes, ela não é mesmo!

Qual é o resumo da ópera?

A convivência entre todos os colaboradores no ambiente de trabalho é o fator essencial na geração de vantagens competitivas sustentáveis. Isto porque, através dessa convivência, são construídos conhecimentos e valores que não podem ser copiados por outsiders. Temos a convicção de que esta convivência é fundamental para garantir a longevidade bem-sucedida das organizações; portanto, criar facilidades para que isto ocorra; é prioridade. Os Googles cafés e a nova sede da Apple são exemplos dessa estratégia (click aqui para saber mais). Mas como criar essas condições remotamente? Se considerarmos, sobretudo, que já começa a se caracterizar uma resistência de retorno ao escritório por parte daqueles que experimentaram a remotabilidade; o desafio aumenta.

Uma ilha de respostas cercada de dúvidas por todos os lados!

Não dá para, nos tempos atuais, abrir mão do presencial.  A troca de figurinha, informalmente, resultado do relacionamento pessoal no ambiente de trabalho, é o que gera os valores invisíveis e os conhecimentos tácitos. Esses valores e conhecimentos são os motores propulsores de vantagens competitivas sustentáveis. Sendo assim, não dá para ignorar os movimentos das gigantes IBM, Apple e Google, entre outras menos conhecidas, nesta direção. Elas “sempre” sabem o que fazem.

Dessa forma, minha posição é de que devemos mesclar um pouquinho de cada, presencial e remoto. Penso que a dinâmica entre o ora remoto, ora presencial, traga para todos a motivação da quebra de rotina de ficar só no escritório ou só em casa. Esta “mescla” entre as duas modalidades preservará as condições de convivência entre os colaboradores, olho-no-olho, necessária para elucidar os valores e conhecimentos não copiáveis, ao mesmo tempo em que a conveniência do home office é mantida. Tipo Gregos e Troianos felizes, entende? Não é simples, mas gestão existe para isso.

Saúde e até a próxima!

2020-12-14T11:25:27-03:00 14 de dezembro, 2020|Atualidade|0 Comentários

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